Festival eletrônico ignora limite de horário e planeja festa de dois dias no Anhangabaú; prefeitura cobra concessionária
Eventos no Vale do Anhangabaú, no Centro, precisam terminar no máximo até 23h. Restrição foi imposta pela gestão Ricardo Nunes (MDB) após reclamações recorrentes de barulho pela vizinhança.
Contrariando uma determinação recente da Prefeitura de São Paulo, que limita às 23h o horário de término de eventos no Vale do Anhangabaú, o festival Time Warp Brasil anunciou que terá apresentações até depois do amanhecer em sua próxima edição, marcada para os dias 1º e 2 de maio, no Centro de São Paulo. Dedicado à música eletrônica, o evento reunirá 30 DJs ao longo de dois dias de festa.
A restrição imposta pela gestão Ricardo Nunes (MDB) foi motivada pelas recorrentes reclamações de moradores do entorno, cansados de conviver com o barulho fora de hora. Um levantamento do g1 no Diário Oficial do município identificou que 14 dos 20 eventos particulares realizados no Anhangabaú no ano passado invadiram a madrugada.
Na terça (3), a Prefeitura de São Paulo cobrou esclarecimentos à concessionária Viva o Vale, que administra a área pública desde 2021, já que a divulgação do evento indica programação incompatível com o limite de horário. A empresa também foi procurada pela reportagem, mas não respondeu até a publicação deste texto.
Na notificação, a Secretaria Municipal das Subprefeituras deixa claro que "a autorização do evento estará condiciona ao cumprimento dos parâmetros e medidas mitigadoras de incomodidade apresentadas, bem como o cumprimento do horário".
Mesmo sem licenças municipais, os ingressos para o Time Warp 2026 são vendidos desde dezembro. A meia-entrada para os dois dias de evento custa R$ 520 no lote atual.
"Do primeiro pulso ao último amanhecer, construímos dois dias de intensidade, conexão e entrega total à música", diz anúncio publicado no Instagram da festa. Na edição do ano passado, o evento durou 12 horas, com encerramento às 8h de domingo.
A Entourage, produtora responsável pelo evento, está entre as principais parceiras da Viva o Vale e já levou diversos eventos de música eletrônica ao Anhangabaú nos últimos anos, após concessão à iniciativa privada.
O mais recente foi o show do DJ alemão Boris Brejcha, em dezembro. Durante o evento, uma fiscalização do Programa do Silêncio Urbano (Psiu) constatou que a emissão de ruídos estava acima dos limites permitidos e emitiu uma autuação orientativa à Entourage.
Dias depois, a Prefeitura de São Paulo autuou a Viva o Vale por causa do episódio, que foi classificado como uma "infração contratual grave". A multa prevista é de 1% sobre o valor do contrato de concessão, que é de R$ 55 milhões.
A fiscalização ocorreu após determinação do Ministério Público de São Paulo, que já abriu dois inquéritos sobre a concessão do Anhangabaú após denúncias de poluição sonora.
Em sua defesa prévia enviada à prefeitura, a Viva o Vale contestou a multa alegando que a responsabilidade direta pelos ruídos é da produtora e que as medições do Psiu apresentaram falhas técnicas e metodológicas. No documento, a empresa sustenta que adotou medidas de mitigação de ruído e que teve conduta "absolutamente irretocável" no caso.
"Se é lícito e o Poder Concedente autorizou que o evento fosse promovido e realizado por terceiro, o que mais se poderia esperar da Viva Vale que não buscar assegurar, com cláusulas contratuais firmes e inequívocas, que aquele terceiro cumprisse as normas relativas à emissão de ruídos?", argumenta a defesa.
O g1 solicitou um posicionamento à Entourage sobre a realização do festival Time Warp em maio, mas não obteve retorno até a publicação dessa reportagem.
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